Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Confie em mim


“Confie em mim, eu sou sua amiga”
Confiei, confio, confiamos... segui o rumo apontado pela guia, seguimos.
Cada poço, cada pedra, foi tudo premeditado.
O melhor sempre nos foi dado.
Nada, nada nunca deu errado.

“Confie em mim, eu quero seu bem”
Fui cuidada, fomos.
Remediada, fomos.
Tudo o que pensava, errada ou certa, não importava, ela estava lá, sempre.
Certa.

“Confie em mim, não tema”
Me confortei, me conformei, me conformava.
Tem coisa melhor do que se sentir cuidada?
Tem despreocupação maior do que se sentir amparada?
Me perdi em ilusão confortável.

“Confie em mim, me ouça”
Ouvi tanto que me fiz de ouvida.
Meu medo agora é pular para fora.
Ou silenciar o zum zum zum que sempre ouvi.
Zum zum zum...

“Confie em mim, me siga”
O difícil agora é seguir no contra.
No grande desconforto do contra de não saber o que vem lá.
No grande desconforto do contra desacostumado.
Lembrando que para o outro lado seria bem mais fácil.

“Confie em mim”
Confio, confiarei...
Só peço, depois de tanto confiar, que me deixe ser completa.
Me deixe errar.
Depois de tanta confiança, um pedido, uma insegurança:
Confie em Mim, eu já me sou confiável.

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

Um Pouco Perdão

Dez anos, infância.
Vinte anos, caminho.
Quarenta anos, “se” – e se fosse diferente?
Cinqüenta, sessenta, setenta anos...
Um filho, uma felicidade sincera, uma tristeza permanente.
Uma vida.

Viver é preciso. O tempo é uma necessidade, um pré-requisito do saber e falar não é apenas uma questão lingüística.
-Vida, do Lat. vita; s.f., existência.
A palavra é seca e crua se o conhecer não fizer parte de suas entranhas. É preciso estar gorda de conhecimento, cheia; é preciso viver para que Vida seja uma palavra-nuvem prestes a desabar.
Escrever, então, é quebrar essa regra, é burlar a realidade e brincar com o tempo, logo ele que é tão intransigente. Escrever é doar sentidos desconhecidos para palavras vazias, é sair da física, do corpo, e assumir a maleabilidade, preenchendo vidas estranhas, futuros de anos e passados perdidos, em um só rabisco e alguns fonemas.
E é por isso que escrever é tão difícil quanto perdoar, entender, que também não deixa de ser um difícil inocente sair de si e compreender.
Perdoar é esquecer-se um pouco, jogar-se em um canto e ficar em silêncio. Quando se perdoa trocam-se os papéis, entra-se para fora, faz-se aurora miúda, recém nascida, que tudo vê depois que expulsa a noite e sua escuridão. O corpo fica, o pensar solidificado fica, só leva a luz e retorna água, pronta para derreter o que ficou e se fazer mais colorida.
O perigo é ficar preso em uma nota só e tocá-la de ré com dó de si, preso no fá sem poder sair... O erro é pensar que existe referência, que existe protagonista.
Não se entende o mundo diante do espelho.
Mas a maior falha, infelizmente, é querer voar. Achar que é realmente possível se libertar do “espelho, espelho meu”. São os mais sábios que se destroem nessa ilusão, os pequenos se contentam com os pés, se contentam em tolerar ou esquecer. São os insaciáveis que querem utopias.
A utopia do perdoar.
O sonho de entender as dores, de entender as estranhas partes que lhe foram doadas, de entender cada carta do baralho, cada outro que te montou.
O querer inalcançável de não-ser é o erro.
É impossível ir ao fim do infinito.

Por fim me rendo... meus pés me cansam,
eu erro me sabendo errada,
me maltrato e me calo,
quero asas!

Quero sentir o gosto da impossível descrição de um sabor desconhecido
E vou assim, tentando entender o outro e perdoar a vida...
Tentando me sentir mais entendida – amiga.

Quarta-feira, Agosto 29, 2007

O Meu Sertão

O vento
O calor
O brilho, a queimadura do brilho
O sol
O estalar das folhas queimadas
O marrom
A terra, as amargas feridas da terra
A sede
A falta de vida, viva.

O sonho: água
A chuva: susto
O medo do novo
O querer temido
O querer desconhecido
As feridas que pedem remendos
A chuva que vem remendar
...O medo de afundar
O medo da ajuda, estranha há tempo.

A seca, que seca prefere ficar
O costume mal acostumado
O conformar mais desconforme.

O tempo de ser pó precisa de um sopro.
A chuva precisa molhar, sem medo de afogar o chão.
Eu preciso receber o que temo, o que não tenho, o que não dou,
o que nunca me dão.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

O Fim do Ano

Ontem, finalmente, o ano acabou.
É verdade que continuo acordando com raiva do sono e ficando tonta por ter levantado rápido demais, mas algumas coisas mudaram tão bruscamente que mesmo estando em agosto já decretei o fim do ano. Ainda vou mais longe e ouso dizer que com o fim desse ano acaba também um passado, uma etapa, uma de tantas vidas que tenho dentro de mim.
Esse ano levou para a Itália a minha única amiga com quem me compartilhei desde 1990. Ela foi para não voltar, e por mais que volte a música já não será a mesma. Esse ano também resolveu casar um irmão, o mais velho, que de agora em diante é “metade daqui, metade de lá”. Com o casamento, a família cresce e diminui. Metade do irmão vai e novos nomes vêm para o amigo secreto do natal.
Ontem, terça feira dia 7 de agosto, finalizam os últimos acontecimentos e o ano acaba. Acontecimento um: Depois de muito tempo pensando no futuro e nas escolhas, não consegui decidir e me deixei levar pelos dogmas do nosso século. Estava em dúvida entre coisas que gosto e coisas que, aparentemente, dão certo. Teatro, letras, filosofia ou direito? Escolhi a que vai me dar menos trabalho, e, também, menos alegrias. Sim, escolhi direito. Os velhos projetos se aposentaram, os sonhos caíram das nuvens e estão esquecidos pelo chão. Acontecimento dois: Tenho dois irmãos mais velhos, um de 23 e um casado (porque parece que depois que se casa essa informação é a única que realmente importa). Ontem, um deles embarcou para São Paulo para encontrar o outro, que já estava lá desde segunda, e ontem mesmo eles seguiram viagem para os Estados Unidos da América, onde vão fazer doutorado em economia. Dois irmãos e uma cunhada acompanhando.
Assim que voltei do aeroporto arrumei o chaveiro do carro, que agora é só meu, e também reorganizei o banheiro, que agora também é só meu. Estava tão elétrica que não percebi que a casa estava maior. Os sons também estavam mais audíveis e a minha voz estava mais quieta. Bem que eu desconfiava que essa tal de solidão tem uma enorme influência na relação mundo-indivíduo. Quando finalmente deitei para pensar um pouco, ouço a voz da minha mãe: “amanhã começam as reformas do seu quarto”. De primeira fiquei muito feliz, sempre quis reformar algumas coisas, mas quando eu pensei um pouco mais... Nunca reformei meu quarto, foi ele, assim como ele é, que me viu crescer. Por todo lado encontro marcas de quem fui, lembranças de um passado que já está mais do que ultrapassado, mas que mesmo assim me reconhece, me acolhe.
Hoje, quando entrei no quarto, não tinha quase mais nada nas prateleiras, o quarto estava frio, maior, silencioso... estava como a casa está. Meus ursos, não vi nenhum... As paredes expostas pareciam me culpar pela ausência de vida. Tive vontade de dizer a minha mãe que desisti de tudo, que não quero mais reforma e quero tudo em seu lugar, como sempre foi. Mas não tive coragem... O quebra-quebra começa amanhã e eu não quero nem estar perto para ver o ponto final.
Com meu quarto, morre o passado finalizado com o fim do ano ontem... ele só morre porque não continuará crescendo, mas ele continuará aqui, nas lembranças, nas saudades.



(*E o "surgindo..." escolhe ficar surgindo sem ter fim. O texto abaixo fica inacabado, ou talvez seu fim seja eternamente surgir. Pronto, não precisa de mais nada).

Quinta-feira, Junho 28, 2007

Ser Um Pato

... surgindo

Quarta-feira, Maio 30, 2007

O Mal da Achança

Ela acha que é... ela acha
O problema dela, afinal, é de achança...
Ela acha que é, ela acha O que é, ser.
Ela fala o que acha, ela acha o que fala
Ela ensina o que achou, e acha mais ao ensinar
Ela acha ensinar uma graça, pois achou, achou que era... achou o que era.
Achar é o Ser mais possível... o único possível...
Não se acha o que é, se acha ser, se acha...
Simplesmente se acha, não se é...
Se acha.
Ela se acha, afinal, o problema dela é de achança.



Eu me acho...
Me acho sendo, sou o que acho...
Acho ser, me acho...
Sou o que acho, acho o que sou.

Sábado, Maio 19, 2007

Uma Maria


Esse ano eu conheci uma Maria, uma Maria como a mãe de Jesus (por mais que não seja religiosa sou amante de histórias...). Uma Maria da cor do frio, e de olhos de jabuticaba. Uma Maria tão bela que chega fico sem graça. Essa Maria morreu, e viveu novamente. Na verdade, ela olhou a morte e agarrou a vida. Ela anda sorrindo, e enquanto sorri ela pensa... Ela pensa nas dúvidas que tem, ela se questiona... ela questiona a vida...
A vida é mesmo engraçada, ela é como a pegadinha do presente miúdo, aquele que você coloca em uma caixa minúscula e cobre com outras mil, que no caso da vida são infinitas. Cada caixa é uma surpresa inexplicável de início, um susto, mais logo logo conseguimos adequá-la à nossa seqüência lógica de explicações sobre o que seria vida. Estamos sempre recriando essa explicação, é verdade, mas mesmo sua recriação tem uma lógica (criada e fixada por nós) e se abrimos uma caixa totalmente fora do contexto o susto é bem maior e a explicação então fica perdida. Primeiramente, tudo que não se adequa é explicado inexplicavelmente por crenças que só têm como fundamento a própria crença, horrível. Mas, são nesses pequenos e raros momentos que temos a chance de contestar nossa lógica, é quando dá errado e levamos um susto que observamos o nosso comportamento e então começamos a pensar de forma mais abrangente e crítica sobre o viver.
Começamos a pensar que vivemos, simplesmente vivemos, indiferentemente. Segundo uma autora, por quem tenho grande admiração, a vida é iluminada (lê-se: reflexo) pela lua, que mesmo escurecida aqui ou acolá por pedaços de nuvens, brilha com serenidade, com severidade ou talvez com completa indiferença. Não sabemos mais ao certo o motivo, a razão, a lógica do viver. Simplesmente vivemos, sonhamos e amamos mesmo estando perdidos, perdidos em um mundo que não conversa, não responde. Nossos medos são dúvidas, nossas dúvidas, tormentos. É como se sempre tivéssemos visto em preto e branco e só agora pudéssemos ver as cores, mas essas, que são desconhecidas, são tão fortes que queimam nossa íris e ofuscam nossa visão.
Muitas vezes essa caixa “fora do contexto” está repleta de sentimentos, de dores, de tristezas. Maria viveu uma dessas caixinhas, e se pergunta porque foi escolhida para ver o colorido dolorido. O porquê faz parte da nossa tentativa de adequar o fato à nossa lógica. Parece que enquanto falta o porquê o fato está suspenso no ar sem ligação alguma. Temos que aprender que às vezes os porquês se escondem nas conseqüências e não nas causas.
Primeiramente é preciso dizer que por mais que as razões para essas dores sejam externas, sempre nos colocamos como vítimas. Maria foi vítima, diz ela. Afinal, todos nós estamos interligados e muitas vezes vivemos pelos outros, ou com os outros. Nossa vida não é nossa vida, é um emaranhado de vidas, somos vários, logo, o que acontece com um reflete nos outros. A caixa estranha é esse reflexo que veio de fora. Muitas vezes a morte de alguém é uma causa para a chegada da caixa. Segundo a mesma autora que mencionei previamente sempre é preciso alguém morrer para valorizarmos a vida. Não concordo plenamente pois acho que esse pensamento poderia ter conseqüências muito drásticas, mas a idéia não deixa de ser válida: precisamos ver que o poço tem fundo para podermos aproveitar a água que resta. Então precisamos procurar nas conseqüências uma explicação que nos acalme.
Às vezes estamos com tanta raiva do que aconteceu que ignoramos todas as conseqüências, julgamos todas cruéis e medíocres, dizemos que não teve um porquê justo e só fazemos nos bater. Fechamos os olhos para o que aprendemos (sempre aprendemos) ou dizemos que tudo o que aprendemos só nos fez pior. Não é verdade, o que aprendemos não nos faz pior ou melhor, somos nós que colhemos os frutos e decidimos o que vamos fazer com eles. Quando não queremos aceitar o fato a tendência é transformar todas as conseqüências em péssimos adjetivos.
A questão não é gostar do fato, é saber renascer de forma saudável. É aproveitar esse novo momento. A questão não é não chorar e não sentir dor, é saber que mesmo chorando e mesmo doendo estais renascendo, e renascer é sempre difícil.
Maria, e que bela Maria, renasce a cada dia. Maria caminha um pouco doída, mas renasce a cada dia. Ela sorri pela metade e chora com vontade, ela sabe a dificuldade de crescer, de renascer. Ela vive a dificuldade de ver a vida com os famosos “outros olhos” que todo mundo conhece mas que nunca provou de verdade. Maria sonha, lembra, esquece, vive. Maria vive e vivendo ela vai colhendo todos os frutos e vai reconstruindo seu pomar.
Vive Maria, revive Maria, renasce que teu Jesus também renasceu!

- Para Flávia Suassuna