
Onze anos depois… Parei de escrever em diários.
Era uma obrigação diária que reduzia meus escritos a frases curtas e mal amadas. Resolvi, então, fazer de meus textos minha única ferramenta de memória. O resultado foi pior, ao invés da obrigação de escrever todo dia, fico com a preocupação de não estar escrevendo nada.
Acumulei eventos, suas frases, pontos e vírgulas como quem acumula afazeres depois de um dia corrido de trabalho. Foi assim que descobri que acumular significa mudança. Quem acumula muito, na hora da prática tem que eleger prioridades, modificar planos e se adaptar a novas realidades.
Esse texto é o resultado do acúmulo irresponsável de quatro outros que já deveriam ter sidos realizados.
1. Dois meses quase completos na França e só agora começamos a viver, no sentido mais “empírico” da palavra. Nos mudamos pela terceira e última vez e já andamos pela cidade com mais tranquilidade, sem precisarmos de mapas ou de ficarmos tentando seguir o caminho do famoso “ônibus 31”.
Na medida que o frio vem, os passeios congelam no tempo e passam a esperar ansiosos para brotarem com a primavera. Já sinto falta dos desconhecidos queridos com quem passeava no 31. A senhora com o cachorro, o ruivinho e a ruivinha que vinham com a avó ou com a mãe, o casal de velhinhos que conversavam durante todo o caminho e davam as mãos na hora da descida, o garoto com o mp3 que todo mundo conseguia ouvir de tão alto, a senhora com grandes olhos saltando pela janela de seu véu … Pessoas para quem eu já abria um sorriso enorme e sabia estar sendo reconhecida. Ainda assim, o frio, por ser mais controlável por casacos, cachecóis e chocolates quentes, é mais agradável do que o calor devastador que deve estar fazendo em Recife.
As aulas são maravilhosas, principalmente a de História da Arte, é coisa de filme. Aprendemos a identificar épocas, artistas e quadros, é história pura! A aula de política também é interessante, mas pode ser facilmente resumida em poucas palavras: Revolução Francesa e De Gaulle. No mais, la ville nous plaît beaucoup!
2. La Côte d’Azur! Fiz duas visitas à Côte, uma primeira com a universidade e outra com uns pedacinhos de Recife que vieram visitar, e dos quais falarei no próximo trecho. Fomos em Nice, Cannes, Antibes, Cassis, Mônaco, St. Paul de Vence e Gordes. Desculpe mais vou ter que fazer uma rima completamente esdrúxula, Gordes é gorgeous! É uma pequena vila de montanha, parece grega. St. Paul de Vence também é uma graça, bem medieval. Caminhando você fica a imaginar cenas descoladas da realidade, sonhando em um dia ter podido viver num daqueles becos, numa casa cheia de janelas floridas, fofocando com as vizinhas. Fiquei decepcionada com Cannes que imaginava ser como Mônaco, ostentações e ornamentos, mas também uma cidade muito saudável. As visitas foram ótimas, e as companhias maravilhosas. Com a universidade não parávamos de andar, com a família, de gargalhar.
3. Recebemos duas visitas mornas, que trouxeram bons ventos. Luísa foi a primeira, que veio direto da Escócia e cheia de novidades! Nos contou do verde, dos cavalos e das ovelhas lá de cima. Do sotaque, dos hábitos e das comidas. Essa coisa de intercâmbio é muito boa mesmo! Depois chegaram Tia Sandrinha e Tio Alfredo, que iniciaram o tour fazendo doações. Eles nos doaram histórias, piadas, gargalhadas e ótimos momentos. Com eles fomos também à Avignon (Le Palais des Papes) e à Orange, ver o Teatro Romano, que me fez chorar sem nenhuma razão aparente, acho que foi a saudade de tudo aquilo que não vivi, ou a constatação de que somos baixinhos se comparados ao senhor Tempo. Meus tios deixaram saudades desproporcionais à quantidade de tempo que ficaram, mas eles foram doar mais felicidade pela Europa.
4. Paris em 2 dias. Minha batalha do mês outubro. Visitar Paris com minha prima Luísa em dois dias. Foi a segunda vez que fui à Paris e foi, novamente, muito cansativo. Ainda não conseguí amar toda a cidade, eu amo os primeiros momentos e depois quero ver tudo rapidamente e parar para respirar. Não conseguimos entrar no Louvre, mas vimos o Orsay todo, o meu preferido. Começamos lá de baixo, pelos representantes do Rococó, do Neoclassicismo… e fomos com bem muita calma. Durante todo o percurso eu dizia: “Espere chegar nos impressionistas”. Luísa conhecia o termo, mas não exatamente a escola. Quando chegamos no ultimo andar, ela entrou na sala de Renoir, virou para mim e disse: “Por que tu não dissestes que eram assim os quadros impressionistas? Gastamos a maior parte do tempo lá em baixo! Esses já são meus favoritos”. Pode ser um pecado preferir um estilo a outro, já que todos são extremamente importantes, mas eu não tenho medo de dizer que pessoalmente, prefiro os impressionistas e indépendants. Embora o classicismo seja tão perfeitamente belo…………….. Da Sacré Coeur constatamos que a Torre de Gustavo estava toda piscando, já eram umas 9 da noite e nós resolvemos encarar todas as escadas da Basílica e do metrô para chegarmos nas estrelas. Valeu a pena, eu não sabia que podia subir à noite. Vimos a cidade das luzes, “às luzes”!
Voltei satisfeita, minha mãe foi conosco e acho que também aproveitou, Luísa deve ter ficado um pouco cheia demais, como quando comemos, depois dá uma embrulhada. Paris é realmente um prato cheio!
Depois desses restos de lembranças, dessa visão geral cortando todos os detalhes que dão o tempero, eu prometo que da próxima vez vou exagerar no sal! Que acúmulo irresponsável de memórias…





