Esse ano eu conheci uma Maria, uma Maria como a mãe de Jesus (por mais que não seja religiosa sou amante de histórias...). Uma Maria da cor do frio, e de olhos de jabuticaba. Uma Maria tão bela que chega fico sem graça. Essa Maria morreu, e viveu novamente. Na verdade, ela olhou a morte e agarrou a vida. Ela anda sorrindo, e enquanto sorri ela pensa... Ela pensa nas dúvidas que tem, ela se questiona... ela questiona a vida...
A vida é mesmo engraçada, ela é como a pegadinha do presente miúdo, aquele que você coloca em uma caixa minúscula e cobre com outras mil, que no caso da vida são infinitas. Cada caixa é uma surpresa inexplicável de início, um susto, mais logo logo conseguimos adequá-la à nossa seqüência lógica de explicações sobre o que seria vida. Estamos sempre recriando essa explicação, é verdade, mas mesmo sua recriação tem uma lógica (criada e fixada por nós) e se abrimos uma caixa totalmente fora do contexto o susto é bem maior e a explicação então fica perdida. Primeiramente, tudo que não se adequa é explicado inexplicavelmente por crenças que só têm como fundamento a própria crença, horrível. Mas, são nesses pequenos e raros momentos que temos a chance de contestar nossa lógica, é quando dá errado e levamos um susto que observamos o nosso comportamento e então começamos a pensar de forma mais abrangente e crítica sobre o viver.
Começamos a pensar que vivemos, simplesmente vivemos, indiferentemente. Segundo uma autora, por quem tenho grande admiração, a vida é iluminada (lê-se: reflexo) pela lua, que mesmo escurecida aqui ou acolá por pedaços de nuvens, brilha com serenidade, com severidade ou talvez com completa indiferença. Não sabemos mais ao certo o motivo, a razão, a lógica do viver. Simplesmente vivemos, sonhamos e amamos mesmo estando perdidos, perdidos em um mundo que não conversa, não responde. Nossos medos são dúvidas, nossas dúvidas, tormentos. É como se sempre tivéssemos visto em preto e branco e só agora pudéssemos ver as cores, mas essas, que são desconhecidas, são tão fortes que queimam nossa íris e ofuscam nossa visão.
Muitas vezes essa caixa “fora do contexto” está repleta de sentimentos, de dores, de tristezas. Maria viveu uma dessas caixinhas, e se pergunta porque foi escolhida para ver o colorido dolorido. O porquê faz parte da nossa tentativa de adequar o fato à nossa lógica. Parece que enquanto falta o porquê o fato está suspenso no ar sem ligação alguma. Temos que aprender que às vezes os porquês se escondem nas conseqüências e não nas causas.
Primeiramente é preciso dizer que por mais que as razões para essas dores sejam externas, sempre nos colocamos como vítimas. Maria foi vítima, diz ela. Afinal, todos nós estamos interligados e muitas vezes vivemos pelos outros, ou com os outros. Nossa vida não é nossa vida, é um emaranhado de vidas, somos vários, logo, o que acontece com um reflete nos outros. A caixa estranha é esse reflexo que veio de fora. Muitas vezes a morte de alguém é uma causa para a chegada da caixa. Segundo a mesma autora que mencionei previamente sempre é preciso alguém morrer para valorizarmos a vida. Não concordo plenamente pois acho que esse pensamento poderia ter conseqüências muito drásticas, mas a idéia não deixa de ser válida: precisamos ver que o poço tem fundo para podermos aproveitar a água que resta. Então precisamos procurar nas conseqüências uma explicação que nos acalme.
Às vezes estamos com tanta raiva do que aconteceu que ignoramos todas as conseqüências, julgamos todas cruéis e medíocres, dizemos que não teve um porquê justo e só fazemos nos bater. Fechamos os olhos para o que aprendemos (sempre aprendemos) ou dizemos que tudo o que aprendemos só nos fez pior. Não é verdade, o que aprendemos não nos faz pior ou melhor, somos nós que colhemos os frutos e decidimos o que vamos fazer com eles. Quando não queremos aceitar o fato a tendência é transformar todas as conseqüências em péssimos adjetivos.
A questão não é gostar do fato, é saber renascer de forma saudável. É aproveitar esse novo momento. A questão não é não chorar e não sentir dor, é saber que mesmo chorando e mesmo doendo estais renascendo, e renascer é sempre difícil.
Maria, e que bela Maria, renasce a cada dia. Maria caminha um pouco doída, mas renasce a cada dia. Ela sorri pela metade e chora com vontade, ela sabe a dificuldade de crescer, de renascer. Ela vive a dificuldade de ver a vida com os famosos “outros olhos” que todo mundo conhece mas que nunca provou de verdade. Maria sonha, lembra, esquece, vive. Maria vive e vivendo ela vai colhendo todos os frutos e vai reconstruindo seu pomar.
Vive Maria, revive Maria, renasce que teu Jesus também renasceu!
- Para Flávia Suassuna